Estrela Cadente - por Diego  escrito em domingo 27 janeiro 2008 19:16

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Texto de alguns meses atrás.

 

Em toda minha vida, vi apenas duas estrelas cadentes. É como um pequeno rasgo na imensidão do firmamento, cintilante, sibilante, incrivelmente azul e mística. Quando vi pela primeira vez achei realmente que se tratava de uma ilusão; até então eu conhecia tanto estrelas cadentes quanto um menino de 9 anos ao observar uma estrela cadente de plástico em um presépio ou em uma árvore de natal. Antes tarde do que nunca.

Estrala cadente. Péssimo nome para algo tão surpreendentemente bonito como isso. Por que não estrela ascendente? Uma vez que nos confins do tempo e do espaço a posição cartesiana que temos gravada em nossas singelas mentes não existe. Uma vez que não existe também direção dentro de um infinito surreal de espaços vazios que é o universo. É estranha a tendência pessimista do homem. Preferimos sempre o ridículo ao sublime, o obscuro a glória, o ordinário ao extra-ordinário, o vulgar, o pequeno, o banal. É preciso mover o mundo, meus amigos, mesmo que, para isso, tenhamos que nos mover.

Não queria fazer desse texto mais um cadáver, sem sal e sem graça, mas é o que sempre faço e é o que gosto de fazer. A verdade é que ele já é um cadáver, assim já nasce com o decorrer de cada letra, de cada palavra, frase e período formado. É irresistível. Não vou conseguir tirar um sorriso sequer de nenhuma boca de nenhum leitor, por pior que seja, se é que esse existe. Por isso, talvez justamente por isso, tenha voltado a escrever e continuo a fazê-lo em mais um texto enfadonho como este. Não poderia continuar sem escrever isso.

O mundo está cheio de cadentes. No sorriso vulgar, na alegria comum, na beleza ordinária. Isso é saber aproveitar a vida em suas minúcias. Não que seja errado, para mim apenas existe e estou cada vez mais convencido de que deva existir. Quanto mais vivo mais tenho formulado idéias sobre a vida; talvez devêssemos conversar mais, conhecer mais aquele ser ali sentado, a comer um pastel vagabundo em uma barraca maltrapida em uma calçada qualquer. Qual a diferença entre você e ele, e até qual a diferença entre eu e o pasteleiro? Talvez consista no fato dele ter uma barraca de pastel e eu não. Talvez consista no fato de eu ter um bloco de notas em um computador e ele não. Nunca se sabe. Somos todos tão cadentes. Desconto no bloco de notas meus sonhos de ascendente, de crescente, de sublime e glorioso, quando sei que na verdade não se pode exigir muito de uma pessoa tão comum e napoleônica como eu.

Lendo alguns contos atuais percebi que atualmente não andam escrevendo nada de bom. Quer dizer, nada de realmente bom. Percebi também que estou cada vez mais distante de escrever algo de útil. Acho que é por que penso demais e minhas idéias ficam cansadas de tanto se exercitarem em minha cabeça. Coitadas. Nascem, crescem e morrem em minha cabeça. Brevemente não terei mais espaço para enterrar nenhuma mais. Voltando; lendo alguns contos atuais percebi que atualmente eu também não ando escrevendo nada de bom, e que também não tenho jeito nenhum para ficção. Ó doce ficção que me atormenta os pensamentos e que permanece sempre tão distante de minhas singelas palavras a desfilar nas linhas retas desse bloco de notas.

Apontei para o céu e alguém olhou para o meu dedo. Acabei de ver uma estrela cadente, disse ao amigo do meu lado. Grande merda uma estrela cadente, ele retrucou. Talvez tudo se trate exatamente disso, talvez acabamos por esquecer nas cinzas dos dias úteis um pouco de nossa serenidade pueril.

As vezes fico pensando quantas estrelas cadentes deixei de ver ao permanecer olhando para meu próprio céu, para minhas próprias estrelas, a procurar dentre elas uma estrela ascendente. Nunca se sabe. E é justamente por isso que não as vejo. As vezes fico pensando quantas estrelas cadentes já vi durante o dia, sem querer, ao observar uma ave qualquer, ao tentar enxergar um eclipse, ao comentar com meu irmão sobre uma nuvem que parece um grande demônio... Nunca se sabe, uma vez que as mesmas estrelas, tão brilhantes e nítidas da noite de outrora ainda estarão lá no dia posterior. É incrível mas elas continuam lá. Cadentes ou não, continuaram lá.

 

 

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