Pé no freio - por Alex  escrito em segunda 17 dezembro 2007 00:49

adolescencia

Vou para a casa de uma amiga estudar uma prova, três da tarde, meu carro corta com esforço a geléia modorrenta em que o ar se transformou aqui nesta cidade esses dias. Um casal de adolescentes começa a atravessar a rua, de mãos dadas, à minha frente, usam a camisa do colégio Nobre. Eles dão uma olhada para o meu carro, de leve, calculando. A guria faz menção de apressar o passo, ele a dissuade com um olhar de repreensão e, talvez, um discretíssimo aperto na mão. Eles seguem seu ritmo, lento, rumo a outra calçada.

Se nenhum de nós mudarmos nossas velocidades, acabarei por atropelá-los. É evidente todos sabemos disso, como é evidente que isso não acontecerá, pois eu venho não muito rápido e com uma leve pisada no freio: pronto, saímos todos, são e salvos, eu para a casa da minha amiga e eles para a casa dos pais de um deles, onde se deitarão numa cama de solteiro, embaixo de uma parede cheia de fotos e posteres e frases de canetinha hidrocor tipo Mari-eu-te-amo-amiga!, e descobrirão que a vida é excelente. Este pequeno acontecimento me atinge em algum calo das minhas milhares de neuroses urbanas. Irrito-me porque eles fingiram que a velocidade deles estava certa, mas sabem que, se não morreram atropelados, é porque eu diminuí a minha daqui. Mais ainda, talvez, porque aquele carinha passou para a menina a idéia, naquele olhar fugaz, de que com ele ela estava segura, de que era só confiar e tudo daria certo, eles chegariam ao outro lado da avenida, depois ao outro lado do mundo, se quisessem, e seriam felizes para sempre. Mas foi o panaca do volante aqui quem tornou a travessia possível.

Percebo então que quem atravessou a rua à minha frente não foi um casal de adolescentes, foi a adolescência em si. E quem freou o carro não fui eu, mas a idade adulta ou mea-adulta. Pois é assim que a adolescência lida com o mundo. Não capitula: arrisca, peita. “Imagina, se eu mudo meu ritmo, o mundo é que se acostume a ele!”, e porque os adolescentes têm um anjo protetor dos mais poderosos, ou, pelo menos, uma sorte do tamanho de um bonde, acontece de chegarem, quase sempre, sãos e salvos do outro lado da rua.

Já a idade adulta pondera, põe o pé no freio quando convém, faz concessões ao mundo, dirige afinado com a sinfonia dos outros, dentro dessa outra geléia modorrenta cujo nome, hoje, soa tão adolescente: sistema. E por isso me irrito, porque ali, naquela rua, diminuindo meu ritmo, me percebo velho, adequado, apascentado. Eles vão no ritmo deles, a realidade que se vire e é assim, distraídos, que mudam o mundo.

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3 comentário(s)

  • olhos de gata

    Ter 17 Jun 2008 22:38

    vc escreve muito bem! Adorei seu blog e os assuntos tratados...
    bjos

  • juracy mailto

    Sex 28 Mar 2008 05:19

    hahuauhhua
    crise de idade 2

  • BRITO, Charlene. (. . .) mailto

    Ter 18 Dez 2007 01:02

    Crise da idade. . .


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