Mais uma vez o governo Lula me pegou com as calças na mão, soubesse das novas regras pro atendimento virtual, teria esperado de forma mais paciente para enfim cancelar o celular da minha mãe (uma das atividades ontológicas do filho caçula).
O que eu quero saber é se você, caro leitor, tem celular a conta? Pois saiba que enquanto as novas regras não entram em vigor, é mais fácil ver dois elefantes dividirem o banco de trás de uma Brasília 74 com o Gilberto Barros ou um milionário entrar no reino dos céus do que cancelar seu contrato. Falo com segurança: perdi uma noite no telefone até a atendente Sílvia entender que terminava ali a nossa relação – claro que como em qualquer fim de relação, ela de forma exímia, levou-me à beira da loucura com as artimanhas que deve ter aprendido em palestras motivacionais temáticas da Tropa de Elite das Vendas ou qualquer outra aberração oriunda do fascinante mundo do Telemarketing.
“Não, Silvia! Eu não quero um pacote que inclua ligações para celular de outra área! Quero apenas cancelar a assinatura! Escuta: Me oferece mais uma promoção e eu ligo pro juizado do consumidor, ligo pro programa “Cidade Alerta”, mando até um pardal bomba aí pra central, tá me entendendo?!”.
O problema é que a Sílvia era uma verdadeira fotocópia do nosso querido Capitão Nascimento, e como tal não perdia o rebolado. Pedia um instantinho, e lá estava eu ouvindo aquela irritante música de natal em pleno mês de Julho pra, cinco minutos depois, com se nada tivesse acontecido, oferecer-me o “Escolha 40 Deluxe” pelo preço do “Escolha 20 VIP”, o “Escolha 60 Master” pelo preço do “Escolha Comfort 40 – incluindo 10 ringtones!, senhor Alex, é um excelente negócio!”.
“Que diabos de língua você fala? Ringtones? Escolha Comfort?! Minha escolha comfort é cancelar esta joça !!!”. “Eu sugiro o seguinte: o senhor suspende a assinatura por algum tempo, não precisa pagar conta.” Trocando em miúdos. Ela queria que eu jogasse esses quarenta minutos no lixo e marcaríamos, para 6 meses depois, uma nova DR. Tenho certeza de que a dor da espera me faria incapaz de dormir: ”Cancela!”.
“E se o senhor passasse a assinatura para alguém próximo: um parente, quem sabe um amigo?”. Não posso negar que lembrei de um primo folgado que tenho, mas depois recobrei que não era jihadista. Não desejo essa Via Crucis ao meu pior inimigo, Sílvia. “Cancela!”.
Depois de uma hora, rouco, exaltado, atirei-me na poltrona, mas não consegui comemorar o cancelamento, fui aturdido por uma tormenta: o que acontecerá com a Silvia? E se, ao ouvirem nossa conversa -- que foi gravada para minha “maior segurança” -- os sacanas do RH imaginarem que ela é inútil pro negócio? E se ela estiver arrumando os preparativos do casamento? Grávida, talvez.
Noiva, grávida, escorraçada pelo futuro marido, aí vem o senhor Alex e, só porque fechou com a outra operadora pela metade do preço, a arremessa na sarjeta. Pude ver a gestante Sílvia voltando pra casa num ônibus lotado, derramando-se em lágrimas. E pior: vislumbrei a reunião dos gerentes de marketing, numa análise fria do nosso papo e concluindo arrogantemente: “precisamos de mais agressividade!”. Gritei por dentro: “Descancela, atendente Silvia! Descancela!”.

olhosdegata
Sex 01 Ago 2008 16:04