Uma meia-dúzia de amigos diz que eu sou um tanto intelectual, e eu devo confessar persistir a possuir uma veia esquerdista. Nada que justifique melhor estas adjetivações do que o meu ímpeto de freqüentar consuetudinariamente os piores botecos da cidade.
Para que fique bem explicado, nós, do hall dos meio intelectuais, quase esquerdistas, consideramo-nos uma espécie de vanguardistas do proletariado há cerca de 300 anos. (Err, eu sei que há algo de errado numa vanguarda de 300 anos, mas está valendo!). No boteco que elegi para freqüentar recentemente, o proletariado é o simpaticíssimo Gilmar, garçom-proprietário, que saúdo com leve tapinha acreditando piamente resolver aí 500 anos de história. O verdadeiro meio intelectual, meio de esquerda, adora ficar “amigo” de gente como Gilmar, com quem debatemos sobre o futuro do Mengão enquanto nossos iguais não chegam para que possamos enfim conversar algo acerca das novas tendências literárias. “Gilmar, desce aí aquela que cê tava guardando pro Lula”, berro eu com os cotovelos sobre a deficiente mesa de lata que anuncia uma Brahma do tempo em que cerveja era simplesmente Brahma, e aí, eu me sinto parte desta nação.
Por mais que nosso conhecimento das línguas e costumes estrangeiros aponte o contrário, nós os meio intelectuais, meio de esquerda, somos e adoramos ser parte do Brasil, por isso nós adoramos botecos que tem aquela rajada cara brasileira e desprezamos os bons bares que antipaticamente servem “picanha argentina ao alho e óleo” e não tem ovo rosado, pititinga frita, ou uma carne de sol com cuscuz que são, de fato, o que de mais tradicional existe na nossa culinária.
Nós gostamos do Brasil, mas que seja o Brasil diagramado perfeitamente. Não é qualquer nação. Assim, claro, como não é qualquer boteco vagabundo. Tem que seguir um padrão de autenticidade: um bar ruim, com mesa de lata, copo americano sujo e, se tiver porção de pititinga frita, nós somos perfeitamente capazes de chegar ao orgasmo ali mesmo.
Quando um dos nossos acha uma nova bodega jamais freqüentada por outro grupo de meio intelectuais, meio esquerdistas, não conseguimos nos conter: e aí ligamos, passamos e-mail, avisamos pelo MSN e decretamos: “Habemos novo boteco”.
O problema ontológico do bar ruim é que ele tende a se tornar cult e passa a ser visitado por diversos meio intelectuais, meio de esquerda isso sem falar nas universitárias mais ou menos rabudas. Até que mais cedo, ou mais tarde, um fórum de orkut o aponta como point cultural-universitário e aí nós já nos sentimos extremante incomodados, a ponto de um dia chegarmos no boteco sem graça e encontrá-lo cheio de gente que não é nem meio intelectual ou tampouco meio de esquerda e, na verdade, foi lá só para ver se tem universitários e gente pop, o que basta para que saudosistamente digamos: isso aqui prestava quando eu encontrava minha galera semi-intelectual semi-de-esquerda, as universitárias mais ou menos rabudas e uns bêbados que travavam embates no dominó.
Nós gostamos dos pobres que estavam em Cabuçu antes, porque eles eram uns pobres que subiam em coqueiro usavam sandália de pescador, uma coisa admirável, mas nós claramente detestamos àqueles pobres que chegam depois, como fossem usurpadores de beleza, montados num Opala Bujão e de chinelo Keep Naipe. Desse pobre nós não gostamos, nós queremos bem ao pobre autêntico, do Brasil autêntico.
E os donos destes botecos que nós freqüentamos geralmente se dividem em dois tipos: os que nos entendem e os que, definitivamente, não nos entendem. Os primeiros sacam qual é a nossa, mantém o bar genuinamente tosco, chamam uma meia-dúzia de vagabundos da Jaíba para tocar aquele samba não menos vagabundo. Introduz no cardápio um tradicional bolinho de bacalhau, nos oferecem gratuitamente uns cigarros de palha e aumentam em 50% o preço de tudo. Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos também meio bem de vida e estamos dispostos até a pagar caro por aquilo que invariavelmente tem cara de barato. Por outro lado, os donos que não entendem qual é a nossa, empolgados pela invasão, trocam as nossas mesas de lata por umas de fórmica que imitam granito, azulejam toda a parede e tem mau gosto tamanho a ponto de instalar um som estéreo tocando um pagodão. Aí é que eles se fodem bonito, porque nós odiamos isso, nós gostamos como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão brasileira, tão raiz.
Não imagine meu amigo, que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda aqui no Brasil! Ainda mais porque está cada dia mais complicado encontrar botecos que preencham os nossos requisitos, os pobres estão todos de chinelo Keep Naipe e os fóruns de orkut sempre alerta, pronto para encher nossos botecos de gente jovem, bonita e a difundir a picanha argentina ao alho e óleo pelos quatro cantos do planeta água. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda, como eu que, por questões ideológicas, preferem frango a passarinho e carne de sol com aipim.
-- Ô Gilmar! manda uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?
