Meu Senhor do
Bomfim, olhai os jovens nos postos de gasolina. Interfira junto aos
seus superiores e tenha piedade destes pobres seres, a jogar fora
as mais belas noites de suas mocidades sentadas no chão,
tomando uma garrafa de 51 Ice, entre bombas de gasolina e esfihas
adormecidas. Ajudai-os, minha Senhora de Sant’Anna: eles
não sabem que porcaria estão a fazer.
Feira de Santana não tem belas praças, eu sei. As
ruas são violentas, é fato, mas nem tudo está
perdido. É necessário que se mostre a estas pobres
almas a graça dos amassos atrás do colégio, o
esconderijo ofegante na construção que há nas
suas ruas, as enormes possibilidades do vídeo clube da
esquina, a alegria poética de tão simplória do
“Corujão”.
Dirijam-se a uma danceteria, que seja, contanto que afastem suas
bochechas rosadas dos vapores corrosivos dos metanóis.
Acredite neste humilde cronista que vos fala, nem toda a melancolia
de um “play” de prédio, todo o tédio de
uma festa de quinze anos ou, até, a interação
decadente do churrasco na laje, justifica a eleição
de um posto de gasolina como ponto de encontro. Macacos me mordam.
Tudo menos essa oficina dentária de automóveis,
plástico e alumínio, neon e óleo diesel,
túmulo do samba e impossível novo
“aparelho” de Sid Vicious. Devo confessar, por exemplo,
que não imagino que haja futuro um amor que começa
sob a placa “A cada troca de óleo, ganhe uma
revisão nas bobinas”.
Dai a essa abobalhada juventude o germe da revolta. Que eles atirem
pedras ou pixem muros, tomem porres de vodka barata com Schin-Cola
que misturadas em doses ideais se equiparam aos piores formicidas
expostos no mercado, e que o façam por amores
impossíveis, e isto não deve bastar, ajudai-os ainda
a ouvir músicas de péssima qualidade, para que em
seguida usem roupas picotadas, que esta mocidade maldiga pai,
mãe, avô e avó, e que enfim formem bandas punk
e façam serenatas de amor da pior qualidade. Nós,
jovens, temos todo o direito de errar, de perder-nos, de parecermos
ridículos. A única coisa que não nos pode
acontecer é com as camisetas arrumadas para dentro das
calças, cabelo bem penteado e barbas simetricamente feitas,
amarelar a tão famosa lira dos vinte debaixo do luminoso
totem das petroquímicas.
Salvai-me aqui do desmedido preconceito e da
tentação, oh meu Senhor do Bomfim, de dizer que no
passado tudo era lindo, maravilhoso. Sabemos que nossos pais
passaram muitas horas vagando a esmo por ambientes não
tão nobres, aguardando a luz no fim do túnel de suas
adolescências. Talvez fosse, de fato, a mesma coisa.
Para confundir tudo que eu já expliquei até o momento, talvez exista alguma poesia em passar noite após noite, sentado na porta de uma lojinha de conveniência, em gastar alguma grana com cigarros de boa procedência, bebida Ice. Mas aí, explicai-me, meu Senhor do Bomfim, o segredo numa visão ou tire-os dali. É só o que Vos peço, humildemente, no ano que nasceu há pouquíssimo tempo, com o fim de mais um carnaval, de mais uma micareta. Obrigado, Senhor.


olhos de gata
Sáb 12 Jul 2008 20:14