Talvez tenha a ver
com a rápida ascensão do personagem
maquiavélico cearense. Talvez seja conseqüência
da idolatria que os botecos tiveram nos últimos dois
milênios. Ou quiçá, a causa seja à
saída do Joel Santana do Flamengo para assumir a
seleção Sul-Africana. Sei lá. O importante
é que, para felicidade geral da nação, a
coxinha está na moda.
Ainda me lembro nostalgicamente de quando ela habitava aquele pouco
nobre canto engordurado do balcão da padaria da esquina, ao
lado da calabresa e dos ovos azulados. A coxinha deixou aquilo tudo
para cair na vida: se faz presente tanto nos lugares da badalados,
como o Posto de Gasolina - Point da Infeliz Juventude do
Século XXI, onde saem em fornadas e são servidas aos
milhares ainda pouco fumegantes, nas mãos do mal-humorado
atendente - quanto nas grandes redes de lanchonete fast-food.
Só aqui na cidade eu posso me lembrar de umas duas
lanchonetes que tem se especializado em tal especiaria e que
entrega em casa um produto de qualidade inquestionável.
Minha felicidade se dá, não só pelo motivo de
adorar esta mini-granada de gordura saturada, mas porque intuo que
oculto, em meio aos fiapos de frango, ela traga algo além do
bem-vindo catupiry.
Bastou que se desse a consolidação da nova
república, a democracia liberal e sobretudo a invasão
da Kodak pelos quatro cantos do mundo (a Kodak de forma muito mais
eficaz, evidentemente) e passamos a citar bastante o que seria o
fim das identidades locais e o surgimento da aldeia global. Como
se, com a tal abertura dos mercados proposta pelos novos ventos,
tudo aquilo que nos fazia, brasileiros, estivesse condenado ao
desaparecimento, ou, talvez fadado a redução de um
novo "Mc" da famosa lanchonete do Ronald - Que tal o
McSamba?
Em uma das minhas primorosas aulas de literatura do ensino
médio, posso lembrar do meu professor Luís Alberto
citando Oswald de Andrade, num poema chamado Erro de
português, que diz: "Quando o português chegou/ Debaixo
de uma bruta chuva/ Vestiu o índio/ Que pena!/ Fosse uma
manhã de sol/ O índio tinha despido o
português".
Tenho certeza de que nem mesmo usar calças boca-de-sino e
medalhão no peito é mais fora de moda que acreditar
em Antropofagia atualmente. Aliás, é fora de moda
acreditar em muita coisa, no nosso mundo
kodático-democrático, mas penso que talvez a graciosa
coxinha -- que há pouquíssimo tempo era a
representação máxima do
démodé - seja um brilho de sol na manhã
das linhas de Oswald de Andrade. Eu acredito que, num
possível e próximo futuro dominado pelas emergentes
potências: Brasil, Russia, Índia e China, ela
será encontrada facilmente nas casas de
alimentação de todo o mundo, surpreendendo paladares
a cada mordida e encantando a todos com sua inexplicável
maciez.
(Caro Leitor, eu reconheço ter recheado esta crônica
com mais significados do que o necessário. Não
imagine que pedirei perdão. A crônica, como uma boa
coxinha, é assim mesmo: um exagero sutil).
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alex f.
Sex 25 Abr 2008 00:09