Um apanhado sobre a coxinha - Por Alex  escrito em quinta 24 abril 2008 10:31

coxinha, guloseima, kodak

Talvez tenha a ver com a rápida ascensão do personagem maquiavélico cearense. Talvez seja conseqüência da idolatria que os botecos tiveram nos últimos dois milênios. Ou quiçá, a causa seja à saída do Joel Santana do Flamengo para assumir a seleção Sul-Africana. Sei lá. O importante é que, para felicidade geral da nação, a coxinha está na moda.
Ainda me lembro nostalgicamente de quando ela habitava aquele pouco nobre canto engordurado do balcão da padaria da esquina, ao lado da calabresa e dos ovos azulados. A coxinha deixou aquilo tudo para cair na vida: se faz presente tanto nos lugares da badalados, como o Posto de Gasolina - Point da Infeliz Juventude do Século XXI, onde saem em fornadas e são servidas aos milhares ainda pouco fumegantes, nas mãos do mal-humorado atendente - quanto nas grandes redes de lanchonete fast-food. Só aqui na cidade eu posso me lembrar de umas duas lanchonetes que tem se especializado em tal especiaria e que entrega em casa um produto de qualidade inquestionável. Minha felicidade se dá, não só pelo motivo de adorar esta mini-granada de gordura saturada, mas porque intuo que oculto, em meio aos fiapos de frango, ela traga algo além do bem-vindo catupiry.
Bastou que se desse a consolidação da nova república, a democracia liberal e sobretudo a invasão da Kodak pelos quatro cantos do mundo (a Kodak de forma muito mais eficaz, evidentemente) e passamos a citar bastante o que seria o fim das identidades locais e o surgimento da aldeia global. Como se, com a tal abertura dos mercados proposta pelos novos ventos, tudo aquilo que nos fazia, brasileiros, estivesse condenado ao desaparecimento, ou, talvez fadado a redução de um novo "Mc" da famosa lanchonete do Ronald - Que tal o McSamba?
Em uma das minhas primorosas aulas de literatura do ensino médio, posso lembrar do meu professor Luís Alberto citando Oswald de Andrade, num poema chamado Erro de português, que diz: "Quando o português chegou/ Debaixo de uma bruta chuva/ Vestiu o índio/ Que pena!/ Fosse uma manhã de sol/ O índio tinha despido o português".
Tenho certeza de que nem mesmo usar calças boca-de-sino e medalhão no peito é mais fora de moda que acreditar em Antropofagia atualmente. Aliás, é fora de moda acreditar em muita coisa, no nosso mundo kodático-democrático, mas penso que talvez a graciosa coxinha -- que há pouquíssimo tempo era a representação máxima do démodé - seja um brilho de sol na manhã das linhas de Oswald de Andrade. Eu acredito que, num possível e próximo futuro dominado pelas emergentes potências: Brasil, Russia, Índia e China, ela será encontrada facilmente nas casas de alimentação de todo o mundo, surpreendendo paladares a cada mordida e encantando a todos com sua inexplicável maciez.
(Caro Leitor, eu reconheço ter recheado esta crônica com mais significados do que o necessário. Não imagine que pedirei perdão. A crônica, como uma boa coxinha, é assim mesmo: um exagero sutil).

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2 comentário(s)

  • alex f.

    Sex 25 Abr 2008 00:09

    eu tinha me esquecido de como eram delicados e ao mesmo tempo exigentes, os meus queridos leitores!
    hahahah!

  • miupia e estiguimatismo

    Qui 24 Abr 2008 21:44

    aumenta a porra dessa letra...


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