As vezes ficar em casa vale muito a pena. Ficar de frente pra o computador, sabe? Ouvir uma boa música, beber uma cerveja vagabunda e abrir um bloco de notas como esse e escrever qualquer bobagem, enquanto espera algumas imagens carregarem. Se você perceber, alguns momentos da vida fazem você pensar que a vida é tão simples quanto ela realmente é.
Todos dias vamos para lugares que temos que ir, voltamos para casa, sentamos em frente a uma TV ou coisa que o valha e morremos. Morremos um pouco a cada dia, de vagar e tão lentamente que achamos que nunca iremos morrer. Enquanto ando pelas ruas ou quando estou no carro dirigindo com um pouco de vento nas narinas fico pensando em tantas coisas que acabo me afogando num mar de água quente, as idéias sobem à cabeça e daí ficam entaladas, fumegantes, loucas para serem derramadas em algo ou em alguém. Leio alguns livros e eles parecem falar comigo, "Vamos deitar um pouco e relaxar, cara. Você tem uma vida de um filho da puta qualquer, apesar de você se achar um gênio". Os livros são sempre tão realistas e eu acabo muitas vezes me sentindo um idiota a não dar ouvido a eles. É por isso que às vezes não faço questão nenhuma de contrariar a vulgaridade da vida. Se for pensar, é só isso que nos resta na verdade.
O mundo anda muito rápido, não corre, apenas anda mesmo. Os dias passam e vou envelhecendo junto com um monte de gente que nem conheço. Quando chego em casa cansado só penso em dormir e envelhecer um pouco, é algo inevitável. Quando não estou pensando em dormir estou pensando em comer e sempre fico muito cansado depois disso, com vontade de dormir. É um saco por que nunca tenho tempo pra dormir. Disseram-me que eu tenho um tipo de doença, com esse negocio de não dormir direito. Ah, corta essa, durmo tão bem que um bebê ficaria com inveja e as poucas horas que emprego nessa atividade são gastas intensamente. É aquele negócio, as melhores coisas que o homem faz na horizontal; transar, dormir e morrer.
Dizia um provérbio tibetano; "Quando apontam para a lua, o homem olha para o dedo". O homem é mesmo uma boa coisa. Um dia, para falar a verdade, espero fazer um pouco de diferença nesse mundo, nem que seja por algum momento irregular, ser menos ser humano. Não espero ser imortalizado, até mesmo por que isso é impossível, espero apenas ficar velho e que alguns idiotas possam respeitar um pouco das minhas rugas e da minha coluna enfraquecida. Vou arranjar um emprego, contratar uma mulher de uma boa família, ter um filho em quem eu possa descontar tudo que nunca fiz e nunca fui, tomar umas boas cervejas, ler mais umas dezenas de livros, escrever algumas poesias no bloco de notas e morrer tranqüilo e satisfeito, "de velhice", com algumas víboras espreitando e se esgueirando por dentre o meu leito de morte. Por enquanto deixo a morte o mais distante possível, trago para perto o copo com cerveja, fecho o bloco de notas e aumento o volume da vida, grande vida.




