O cenário era aquele velho barzinho do bairro da Kalilândia sempre freqüentado por conhecidos. Lá eu a vi, rodeada de rostos conhecidos (como não) e foi exatamente ali que, de forma ritual, sentei sorrindo, depois de dar um oi a todos e falar alguma dessas bobagens que a gente fala ao chegar, e os outros riem, para nos sintamos acolhidos na turma de cinco ou seis amigos em meio a dezoito milhões de desconhecidos (não que naquele largo caibam dezoito milhões de pessoas, enfim). Não percebi o que estava para acontecer. Ela era uma moça bonita, ponto. Coube-me apenas pensar no momento em que puxava a cadeira para sentar-me: “quem é essa moça bonita que eu não conheço, em meio aos outros que conheço tanto?”.
No meu caso, caro leitor, a primeira impressão é sempre a que fica; para trás. A imagem inicial que crio de pessoas e, sobretudo lugares não tem nada a ver com a que se desenha depois de um tempo. Se naquele momento alguém me perguntasse o que eu achava da menina bonita, certamente não conseguiria me derreter em bons adjetivos ou superlativos. Mas aí, quando ela deu aquele primeiro sorriso, e a curva da gargalhada foi abrindo caminho pelas bochechas e apontando para cima, em direção a dois olhões castanhos adoráveis, pensei assim: eu poderia amar essa mulher.
Não, meus amigos, não foi amor à primeira vista. Eu não me senti loucamente atraído por aquela bonita moça, nem apaixonado. Não me imaginei pulando em cima dela e beijando-a imediatamente, nem nada parecido com aquela afobação que a gente já não sabe se é desejo ou consumismo, aquela que o faz gritar: “Preciso dela imediatamente!”. Eu estava calmíssimo. É que o amor, meus caros, é calmo e sereno.
Eu seria um boboca se dissesse que li nos olhos dela a mesma perspectiva que estava escrita nos meus. Não vi. Aliás, as mulheres normalmente não são assim tão bobas pra dar bola em cinco minutos de conversa. O que reparei foi uma curiosidade nos seus olhos: quem é esse cara que chegou? O que ele faz? O que ele pensa das coisas? E não houve sequer uma palavra que eu tenha dito aquela noite, um gesto que eu tivesse feito que não fosse, ainda que indiretamente, para ela. Tomei cuidado para não deixar transparecer. (Nada que faça perder mais pontos, do que errarmos na dose). Mas ela soube e notei que gostou bastante daquela atenção, tão exagerada quanto disfarçada.
Desculpe dizer que nada de concreto aconteceu. Nem beijos, nem vinho, amassos no carro, arranhões ou lençóis. Duas dúzias de cervejas, uns litros de vinho de péssima qualidade, algumas risadas arrancadas à fórceps com minhas piadas um tanto cretinas (e comemoradas como gols do Flamengo, internamente) e, só posso afirmar com certeza, que tínhamos ali uma mútua promessa de amor, a pladge of love.
Eu poderia narrar outras histórias, com finais um pouco mais felizes e intensos, mas não valeriam à pena. Veja bem, o fato é que nós inflacionamos a felicidade. Assim como está inflacionado o final feliz como um todo, a felicidade está por aí, gasta, em propagandas de Carros novos, em outdoors de pasta de dentes, em livros, músicas alegres e novelas das seis, sete, oito e nenhuma felicidade real jamais conseguirá chegar aos pés dessa que criamos. A única felicidade possível, acredito, é a promessa de felicidade. Está acabando o nosso “happy end”. Só podemos apostar agora em um “happy begining”. E este é o meu. Foi outro dia que conheci essa garota. O que pode nos acontecer? Não tenho a menor idéia, mas agradeço à vida por ter me enviado uma “pledge of love”.


