My pladge of love - Por Alex  escrito em terça 12 agosto 2008 11:33

O cenário era aquele velho barzinho do bairro da Kalilândia sempre freqüentado por conhecidos. Lá eu a vi, rodeada de rostos conhecidos (como não) e foi exatamente ali que, de forma ritual, sentei sorrindo, depois de dar um oi a todos e falar alguma dessas bobagens que a gente fala ao chegar, e os outros riem, para nos sintamos acolhidos na turma de cinco ou seis amigos em meio a dezoito milhões de desconhecidos (não que naquele largo caibam dezoito milhões de pessoas, enfim). Não percebi o que estava para acontecer. Ela era uma moça bonita, ponto. Coube-me apenas pensar no momento em que puxava a cadeira para sentar-me: “quem é essa moça bonita que eu não conheço, em meio aos outros que conheço tanto?”.

No meu caso, caro leitor, a primeira impressão é sempre a que fica; para trás. A imagem inicial que crio de pessoas e, sobretudo lugares não tem nada a ver com a que se desenha depois de um tempo. Se naquele momento alguém me perguntasse o que eu achava da menina bonita, certamente não conseguiria me derreter em bons adjetivos ou superlativos. Mas aí, quando ela deu aquele primeiro sorriso, e a curva da gargalhada foi abrindo caminho pelas bochechas e apontando para cima, em direção a dois olhões castanhos adoráveis, pensei assim: eu poderia amar essa mulher.

Não, meus amigos, não foi amor à primeira vista. Eu não me senti loucamente atraído por aquela bonita moça, nem apaixonado. Não me imaginei pulando em cima dela e beijando-a imediatamente, nem nada parecido com aquela afobação que a gente já não sabe se é desejo ou consumismo, aquela que o faz gritar: “Preciso dela imediatamente!”. Eu estava calmíssimo. É que o amor, meus caros, é calmo e sereno.

Eu seria um boboca se dissesse que li nos olhos dela a mesma perspectiva que estava escrita nos meus. Não vi. Aliás, as mulheres normalmente não são assim tão bobas pra dar bola em cinco minutos de conversa. O que reparei foi uma curiosidade nos seus olhos: quem é esse cara que chegou? O que ele faz? O que ele pensa das coisas? E não houve sequer uma palavra que eu tenha dito aquela noite, um gesto que eu tivesse feito que não fosse, ainda que indiretamente, para ela. Tomei cuidado para não deixar transparecer. (Nada que faça perder mais pontos, do que errarmos na dose). Mas ela soube e notei que gostou bastante daquela atenção, tão exagerada quanto disfarçada.

Desculpe dizer que nada de concreto aconteceu. Nem beijos, nem vinho, amassos no carro, arranhões ou lençóis. Duas dúzias de cervejas, uns litros de vinho de péssima qualidade, algumas risadas arrancadas à fórceps com minhas piadas um tanto cretinas (e comemoradas como gols do Flamengo, internamente) e, só posso afirmar com certeza, que tínhamos ali uma mútua promessa de amor, a pladge of love.

Eu poderia narrar outras histórias, com finais um pouco mais felizes e intensos, mas não valeriam à pena. Veja bem, o fato é que nós inflacionamos a felicidade. Assim como está inflacionado o final feliz como um todo, a felicidade está por aí, gasta, em propagandas de Carros novos, em outdoors de pasta de dentes, em livros, músicas alegres e novelas das seis, sete, oito e nenhuma felicidade real jamais conseguirá chegar aos pés dessa que criamos. A única felicidade possível, acredito, é a promessa de felicidade. Está acabando o nosso “happy end”. Só podemos apostar agora em um “happy begining”. E este é o meu. Foi outro dia que conheci essa garota. O que pode nos acontecer? Não tenho a menor idéia, mas agradeço à vida por ter me enviado uma “pledge of love”.

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Descancela, Sílvia! Descancela! - Por Alex  escrito em quarta 30 julho 2008 18:34

Mais uma vez o governo Lula me pegou com as calças na mão, soubesse das novas regras pro atendimento virtual, teria esperado de forma mais paciente para enfim cancelar o celular da minha mãe (uma das atividades ontológicas do filho caçula).

O que eu quero saber é se você, caro leitor, tem celular a conta? Pois saiba que enquanto as novas regras não entram em vigor, é mais fácil ver dois elefantes dividirem o banco de trás de uma Brasília 74 com o Gilberto Barros ou um milionário entrar no reino dos céus do que cancelar seu contrato. Falo com segurança: perdi uma noite no telefone até a atendente Sílvia entender que terminava ali a nossa relação – claro que como em qualquer fim de relação, ela de forma exímia, levou-me à beira da loucura com as artimanhas que deve ter aprendido em palestras motivacionais temáticas da Tropa de Elite das Vendas ou qualquer outra aberração oriunda do fascinante mundo do Telemarketing.

“Não, Silvia! Eu não quero um pacote que inclua ligações para celular de outra área! Quero apenas cancelar a assinatura! Escuta: Me oferece mais uma promoção e eu ligo pro juizado do consumidor, ligo pro programa “Cidade Alerta”, mando até um pardal bomba aí pra central, tá me entendendo?!”.

O problema é que a Sílvia era uma verdadeira fotocópia do nosso querido Capitão Nascimento, e como tal não perdia o rebolado. Pedia um instantinho, e lá estava eu ouvindo aquela irritante música de natal em pleno mês de Julho pra, cinco minutos depois, com se nada tivesse acontecido, oferecer-me o “Escolha 40 Deluxe” pelo preço do “Escolha 20 VIP”, o “Escolha 60 Master” pelo preço do “Escolha Comfort 40 – incluindo 10 ringtones!, senhor Alex, é um excelente negócio!”.

“Que diabos de língua você fala? Ringtones? Escolha Comfort?! Minha escolha comfort é cancelar esta joça !!!”. “Eu sugiro o seguinte: o senhor suspende a assinatura por algum tempo, não precisa pagar conta.” Trocando em miúdos. Ela queria que eu jogasse esses quarenta minutos no lixo e marcaríamos, para 6 meses depois, uma nova DR. Tenho certeza de que a dor da espera me faria incapaz de dormir: ”Cancela!”.

“E se o senhor passasse a assinatura para alguém próximo: um parente, quem sabe um amigo?”. Não posso negar que lembrei de um primo folgado que tenho, mas depois recobrei que não era jihadista. Não desejo essa Via Crucis ao meu pior inimigo, Sílvia. “Cancela!”.

Depois de uma hora, rouco, exaltado, atirei-me na poltrona, mas não consegui comemorar o cancelamento, fui aturdido por uma tormenta: o que acontecerá com a Silvia? E se, ao ouvirem nossa conversa -- que foi gravada para minha “maior segurança” -- os sacanas do RH imaginarem que ela é inútil pro negócio? E se ela estiver arrumando os preparativos do casamento? Grávida, talvez.

Noiva, grávida, escorraçada pelo futuro marido, aí vem o senhor Alex e, só porque fechou com a outra operadora pela metade do preço, a arremessa na sarjeta. Pude ver a gestante Sílvia voltando pra casa num ônibus lotado, derramando-se em lágrimas. E pior: vislumbrei a reunião dos gerentes de marketing, numa análise fria do nosso papo e concluindo arrogantemente: “precisamos de mais agressividade!”. Gritei por dentro: “Descancela, atendente Silvia! Descancela!”.

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É proibido beber e dirigir? Eu dou meu pitaco! - Por Alex  escrito em terça 08 julho 2008 14:50

É preciso que as pessoas conheçam o meu repúdio a esta cruzada puritana encabeçada pela Rede Globo. Idealizadora do torneio impositivo de valores eficientes e produtivos protagonizado pelo nosso corpo – também conhecido as barrigas tanquinho ISO 9001, que são seguidos por marketing de quinta da nossa balança muscular favorável; premiada com famoso troféu pela dominação de nossas panças e instintos.

Long live ao ziriguidum, à carne do sol com aipim, á cachaça de salinas, à cervejota e ao doce de buriti de Ipirá. Viva Didi Mocó, João Grillo, o Saci Pererê e essa coisa toda. (Aliás, não fosse o álcool, acho que seria virgem até hoje – convenhamos, no meio da adolescência, só um maníaco pode ter a frieza de ficar pelado, na frente de uma garota, em pleno domínio de suas faculdades mentais). Vale que se citem as palavras do sábio Confúcio, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa: da mesma forma que aquele que vier explicar o laissez-faire na concentração do Chiclete com Banana em Domingo de carnaval deve ser mandado para alguma parte da África subsaariana, não dá pra conduzir um cavalo de ferro que pesa uma tonelada a sessenta quilômetros por hora, depois de tomar umas duas.

Porém, ah, porém...

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O boteco vagabundo é uma beleza, camarada - Por Alex  escrito em quarta 02 julho 2008 21:04

Uma meia-dúzia de amigos diz que eu sou um tanto intelectual, e eu devo confessar persistir a possuir uma veia esquerdista. Nada que justifique melhor estas adjetivações do que o meu ímpeto de freqüentar consuetudinariamente os piores botecos da cidade.

Para que fique bem explicado, nós, do hall dos meio intelectuais, quase esquerdistas, consideramo-nos uma espécie de vanguardistas do proletariado há cerca de 300 anos. (Err, eu sei que há algo de errado numa vanguarda de 300 anos, mas está valendo!). No boteco que elegi para freqüentar recentemente, o proletariado é o simpaticíssimo Gilmar, garçom-proprietário, que saúdo com leve tapinha acreditando piamente resolver aí 500 anos de história. O verdadeiro meio intelectual, meio de esquerda, adora ficar “amigo” de gente como Gilmar, com quem debatemos sobre o futuro do Mengão enquanto nossos iguais não chegam para que possamos enfim conversar algo acerca das novas tendências literárias. “Gilmar, desce aí aquela que cê tava guardando pro Lula”, berro eu com os cotovelos sobre a deficiente mesa de lata que anuncia uma Brahma do tempo em que cerveja era simplesmente Brahma, e aí, eu me sinto parte desta nação.

Por mais que nosso conhecimento das línguas e costumes estrangeiros aponte o contrário, nós os meio intelectuais, meio de esquerda, somos e adoramos ser parte do Brasil, por isso nós adoramos botecos que tem aquela rajada cara brasileira e desprezamos os bons bares que antipaticamente servem “picanha argentina ao alho e óleo” e não tem ovo rosado, pititinga frita, ou uma carne de sol com cuscuz que são, de fato, o que de mais tradicional existe na nossa culinária.

Nós gostamos do Brasil, mas que seja o Brasil diagramado perfeitamente. Não é qualquer nação. Assim, claro, como não é qualquer boteco vagabundo. Tem que seguir um padrão de autenticidade: um bar ruim, com mesa de lata, copo americano sujo e, se tiver porção de pititinga frita, nós somos perfeitamente capazes de chegar ao orgasmo ali mesmo.

Quando um dos nossos acha uma nova bodega jamais freqüentada por outro grupo de meio intelectuais, meio esquerdistas, não conseguimos nos conter: e aí ligamos, passamos e-mail, avisamos pelo MSN e decretamos: “Habemos novo boteco”.

O problema ontológico do bar ruim é que ele tende a se tornar cult e passa a ser visitado por diversos meio intelectuais, meio de esquerda isso sem falar nas universitárias mais ou menos rabudas. Até que mais cedo, ou mais tarde, um fórum de orkut o aponta como point cultural-universitário e aí nós já nos sentimos extremante incomodados, a ponto de um dia chegarmos no boteco sem graça e encontrá-lo cheio de gente que não é nem meio intelectual ou tampouco meio de esquerda e, na verdade, foi lá só para ver se tem universitários e gente pop, o que basta para que saudosistamente digamos: isso aqui prestava quando eu encontrava minha galera semi-intelectual semi-de-esquerda, as universitárias mais ou menos rabudas e uns bêbados que travavam embates no dominó.

Nós gostamos dos pobres que estavam em Cabuçu antes, porque eles eram uns pobres que subiam em coqueiro usavam sandália de pescador, uma coisa admirável, mas nós claramente detestamos àqueles pobres que chegam depois, como fossem usurpadores de beleza, montados num Opala Bujão e de chinelo Keep Naipe. Desse pobre nós não gostamos, nós queremos bem ao pobre autêntico, do Brasil autêntico.

E os donos destes botecos que nós freqüentamos geralmente se dividem em dois tipos: os que nos entendem e os que, definitivamente, não nos entendem. Os primeiros sacam qual é a nossa, mantém o bar genuinamente tosco, chamam uma meia-dúzia de vagabundos da Jaíba para tocar aquele samba não menos vagabundo. Introduz no cardápio um tradicional bolinho de bacalhau, nos oferecem gratuitamente uns cigarros de palha e aumentam em 50% o preço de tudo. Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos também meio bem de vida e estamos dispostos até a pagar caro por aquilo que invariavelmente tem cara de barato. Por outro lado, os donos que não entendem qual é a nossa, empolgados pela invasão, trocam as nossas mesas de lata por umas de fórmica que imitam granito, azulejam toda a parede e tem mau gosto tamanho a ponto de instalar um som estéreo tocando um pagodão. Aí é que eles se fodem bonito, porque nós odiamos isso, nós gostamos como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão brasileira, tão raiz.

Não imagine meu amigo, que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda aqui no Brasil! Ainda mais porque está cada dia mais complicado encontrar botecos que preencham os nossos requisitos, os pobres estão todos de chinelo Keep Naipe e os fóruns de orkut sempre alerta, pronto para encher nossos botecos de gente jovem, bonita e a difundir a picanha argentina ao alho e óleo pelos quatro cantos do planeta água. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda, como eu que, por questões ideológicas, preferem frango a passarinho e carne de sol com aipim.

-- Ô Gilmar! manda uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

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Oração da Conveniência - Por Alex  escrito em terça 06 maio 2008 14:02

Meu Senhor do Bomfim, olhai os jovens nos postos de gasolina. Interfira junto aos seus superiores e tenha piedade destes pobres seres, a jogar fora as mais belas noites de suas mocidades sentadas no chão, tomando uma garrafa de 51 Ice, entre bombas de gasolina e esfihas adormecidas. Ajudai-os, minha Senhora de Sant’Anna: eles não sabem que porcaria estão a fazer.
Feira de Santana não tem belas praças, eu sei. As ruas são violentas, é fato, mas nem tudo está perdido. É necessário que se mostre a estas pobres almas a graça dos amassos atrás do colégio, o esconderijo ofegante na construção que há nas suas ruas, as enormes possibilidades do vídeo clube da esquina, a alegria poética de tão simplória do “Corujão”.
Dirijam-se a uma danceteria, que seja, contanto que afastem suas bochechas rosadas dos vapores corrosivos dos metanóis. Acredite neste humilde cronista que vos fala, nem toda a melancolia de um “play” de prédio, todo o tédio de uma festa de quinze anos ou, até, a interação decadente do churrasco na laje, justifica a eleição de um posto de gasolina como ponto de encontro. Macacos me mordam. Tudo menos essa oficina dentária de automóveis, plástico e alumínio, neon e óleo diesel, túmulo do samba e impossível novo “aparelho” de Sid Vicious. Devo confessar, por exemplo, que não imagino que haja futuro um amor que começa sob a placa “A cada troca de óleo, ganhe uma revisão nas bobinas”.
Dai a essa abobalhada juventude o germe da revolta. Que eles atirem pedras ou pixem muros, tomem porres de vodka barata com Schin-Cola que misturadas em doses ideais se equiparam aos piores formicidas expostos no mercado, e que o façam por amores impossíveis, e isto não deve bastar, ajudai-os ainda a ouvir músicas de péssima qualidade, para que em seguida usem roupas picotadas, que esta mocidade maldiga pai, mãe, avô e avó, e que enfim formem bandas punk e façam serenatas de amor da pior qualidade. Nós, jovens, temos todo o direito de errar, de perder-nos, de parecermos ridículos. A única coisa que não nos pode acontecer é com as camisetas arrumadas para dentro das calças, cabelo bem penteado e barbas simetricamente feitas, amarelar a tão famosa lira dos vinte debaixo do luminoso totem das petroquímicas.
Salvai-me aqui do desmedido preconceito e da tentação, oh meu Senhor do Bomfim, de dizer que no passado tudo era lindo, maravilhoso. Sabemos que nossos pais passaram muitas horas vagando a esmo por ambientes não tão nobres, aguardando a luz no fim do túnel de suas adolescências. Talvez fosse, de fato, a mesma coisa.

Para confundir tudo que eu já expliquei até o momento, talvez exista alguma poesia em passar noite após noite, sentado na porta de uma lojinha de conveniência, em gastar alguma grana com cigarros de boa procedência, bebida Ice. Mas aí, explicai-me, meu Senhor do Bomfim, o segredo numa visão ou tire-os dali. É só o que Vos peço, humildemente, no ano que nasceu há pouquíssimo tempo, com o fim de mais um carnaval, de mais uma micareta. Obrigado, Senhor.

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